domingo, 31 de janeiro de 2010

ENTREVISTA A JOAQUIM CABETE - CRIADOR DE CANÁRIOS DE COR

Antes de mais queria dar-lhe os parabéns pela medalha de prata que ganhou com os Agatas Pasteis Amarelos Mosaicos – Equipa, conquistada no 58º Mundial de Ornitologia 2010 realizado em Matosinhos Portugal e  agradecer novamente o facto de ter aceite responder a este questionar, o objectivo é divulgar o seu trabalho  assim como ajudar os mais jovens nesta arte tão relaxante..

1.
Para iniciar o que nos pode dizer acerca de si? (Breve apresentação).

R: Em primeiro lugar agradeço o facto de se ter lembrado de mim e me ter formulado este convite. Antes de mais quero dizer que sou uma pessoa simples e de fácil relacionamento, nunca tenham qualquer receio em me abordar. Como sabem, chamo-me Joaquim Cabete tenho 44 anos, vivo em Oliveira de Azeméis, tenho aves desde à muitos anos, mas só me federei como criador à cerca de 15 anos. Sou Juiz de Canários de Cor do CNJ-FONP e OMJ-COM.

2.
Antes de avançar com mais pormenores acerca da influencia deste hobby na sua vida quotidiana, diga-nos o que sente um criador quando sobe ao pódio na competição mais importante deste Mundo Ornitológico, refiro-me ao Mundial disputado este ano em Portugal (Matosinhos)?

R: É sempre muito gratificante ganhar uma medalha num Campeonato do Mundo e não importa se é de ouro, prata ou bronze, porque afinal de contas este é o topo da ornitologia mundial e toda a ave premiada traduz-se num conjunto de emoções e satisfações muito grandes. Eu participo nestes campeonatos desde 2001 (Stª Mª da Feira) e queria ver se continuava por muitos e longos anos. É claro que a minha participação nestes eventos é sempre muito modesta, nos primeiros anos enviava cerca de 5/6 aves, mas a partir de 2005 comecei a enviar 12/13 aves e comecei a ganhar as minhas primeiras medalhas.

3.
Por vezes não conseguimos explicar certas coisas, mas de onde vem este seu gosto por aves, neste caso canários e também os Cardinalitos da Venezuela e os Cabecita Negra?

R: É curioso que tudo tem uma explicação e o meu caso não é excepção à regra, acontece que o meu avô materno tinha algumas aves silvestres e canários e eu ainda muito pequeno andava sempre à volta dele, pois gostava muito de o ver a tratar das aves e por volta dos meus 10 anos comecei a ter as minhas próprias aves. Mas só quando me associei num clube é que comecei a crescer como criador e logo no primeiro ano ganhei prémios em todas as exposições em que participei.
Quanto aos cardinalitos, comecei em 2001, aquando do Mundial de Stª Mª da Feira e os cabecita negra comecei em 2006, tendo-os adquirido em Reggio Emília.

4.
Sendo este um assunto recente e muito falado devido as dimensões do feito, como reagiu a aprovação da nova raça de porte Portuguesa o Arlequim Português? Expectativas para esta nova raça?

R: Evidentemente que como português, fiquei muito satisfeito em ver o reconhecimento do canário Arlequim Português como uma nova raça da Secção E. Espero que os criadores destas aves continuem a desenvolver o trabalho que têm tido até aqui, no sentido da evolução desta raça portuguesa.

5.
Mudando um pouco de assunto, que raças cria de momento?

R: As raças que eu crio à mais de 10 anos são:
Ágata Amarelo Mosaico, Ágata Pastel Amarelo Mosaico, Phaeo Branco e Phaeo Amarelo Intenso/Nevado.

6.
Com quantos casais criou a época passada, e quantos esta a pensar criar esta época que está quase a iniciar-se?

R: No ano passado criei com cerca de 60 casais e este ano devo criar mais ou menos com o mesmo número. Ainda é um pouco cedo e eu ainda não fiz os meus casais. Só lá para finais de Fevereiro é que irei juntar as minhas aves.

7.
Escolhe os seus reprodutores baseando-se no fenótipo ou genótipo?

 R: Tendo eu criado uma linhagem à já alguns anos e onde o genótipo está presente em todas as aves dessa linhagem, torna-se evidente que me baseie no fenótipo para seleccionar os meus reprodutores, porque afinal de contas é o fenótipo que é avaliado pelos juízes.

8.
As suas baterias de criação e voadeiras têm que dimensões?

R: As minhas gaiolas de criação têm 50x35x35 cm, as voadeiras têm 80x60x60 cm e tenho uma voadeira grande com 300x200x100 cm.

9.
Todos os criadores tem um cuidado especial com o acondicionamento das instalações do canaril, na minha opinião o canaril do amigo Joaquim Cabete é exemplo a seguir .
É apologista de que um canaril (instalações) com boas condições será um grande passo para o sucesso das criações e exposições?

 R: Não são as instalações que têm o peso no sucesso do criador, mas sim a capacidade de seleccionar os reprodutores e de seleccionar as aves resultantes desses acasalamentos. Mas se o criador tiver boas condições poderá proporcionar às suas aves uma melhor muda e uma melhor preparação para os concursos.

10.
Como aconselha o alojamento dos canários? Interior ou exterior? Porquê?

R: Na minha opinião pessoal, os canários devem ser alojados no interior, porque só assim se consegue controlar a temperatura, luz e a humidade, mas cada criador faz como bem entender.

11.
Como é que se prepara para uma exposição? Com quanto tempo se começa a preparar, isolando aves etc..?

R: No final da 1ª semana de Outubro eu apanho todas as aves das voadeiras, faço uma pré-selecção e coloco essas aves uma a uma e já fico com uma ideia das aves que posso contar para os concursos. Duas semanas depois desta operação, faço a selecção definitiva para Reggio Emília e coloco essas aves em gaiolas de exposição, para que se habituem o melhor possível à gaiola.

12.
Acha que o facto de ser Juíz O.M.J. Canários de cor ajuda a selecção das suas aves?

R: É evidente que sim, pois quanto mais conhecimentos técnicos o criador tiver, melhor fará a selecção das suas aves.

13.
Já ganhou alguns prémios, alguns recentemente, de todos qual o deixou mais contente?

 R: Na verdade houve dois prémios que nunca me vou esquecer, o primeiro foi ganho na Expo-Ave do Clube Ornitológico de Antuã em 1996, onde ganhei o 1º Prémio em Ágata Opala Branco Recessivo – Equipas, foi uma alegria extraordinária, pois foi a minha primeira participação numa exposição e nunca pensei que seria possível ganhar a criadores mais experientes. O segundo, foi a minha primeira medalha num Mundial em 2005, onde ganhei uma medalha de prata em Ágata Pastel Amarelo Mosaico – Equipas, também pensei que seria impossível e deu-me uma alegria fantástica.

14.
Em relação aos canários, alguma vez pensou em criar canários de porte ou canto?

R: Eu penso que para criar uma raça de canários, seja ela qual for, é preciso ter bons conhecimentos sobre essas raças, porque só assim se pode ter êxito. No meu caso pessoal só me dedico a canários de cor e mesmo assim com poucas raças.

15.
Em relação à raça phaeo, oiço muitas vezes criadores dizerem que este canários tem maior tendência a criar quistos que as outras raças.. Isto acontece-lhe com frequência?

R: Estas aves têm uma estrutura de pena que proporciona o aparecimento de quisto, principalmente se as aves estiverem sujeitas a muita picagem. Eu não tenho tido praticamente problemas com quistos, porque mantenho as aves em local escuro e não tenho as voadeiras super povoadas com aves, assim mantenho as aves mais sossegadas e evito as picagens.

16.
Todos nos temos algum hábito que não abdicamos na ornitologia, por vezes esse hábito nem tem uma influência directa no sucesso das nossas aves, mas não abdicamos dele de maneira alguma. Possui algum hábito que não abdique realmente?

R: A única coisa que eu não abdico é enviar uma ave para concurso sem que esteja minimamente preparada, pois pode ser fortemente penalizada e isso não abona em nada a favor do criador.

17.
Que tipo de mistura usa? Só alpista ou uma mistura preparada de acordo com as necessidades dos seus canários?

R: Uso mistura light na alimentação base dos meus canários e utilizo também o germinado à base de níger na preparação dos reprodutores, durante a criação e na muda.

18.
Que tratamento considera fundamental fazer todos os anos?

R: Desinfectar bem as instalações para evitar o aparecimento indesejado do piolho, colocar uma gota de frontline ou outro produto em cada ave e depois tratar as aves, contra as salmonelas e coccidioses

19.
O que suplementos considera fundamentais? Adicionados a papa ou agua?

R: Eu adiciono à papa levedura de cerveja que é um suplemento rico em proteínas, aminoácidos e vitaminas do complexo B, adiciono também cálcio e vitamina E.

20.
No meu ponto de vista o registo do plantel é um passo para o sucesso da evolução dos descendentes.
Que tem a dizer a cerca do registo do plantel desde o nascimento aos concursos?

R: O registo do plantel é fundamental para dar continuidade à criação de uma linhagem. Esse registo tem que ser rigoroso e não pode haver enganos para não comprometer o trabalho desenvolvido à vários anos.

21.
Muita gente critica a qualidade das aves Portuguesas. Mas depois destes últimos resultados no Mundial penso que muitas mentes já mudaram..
Contudo como classifica a ornitologia em Portugal?

R: Portugal não foge à regra e tal como nos outros países existem aves de boa qualidade e aves de menor qualidade, mas o que realmente falta em Portugal é o facto de muitos criadores não acreditarem que é possível e penso que este mundial foi fundamental para que as pessoas acreditassem e o resultado foi aquilo que se viu, EXCELENTE. Talvez a partir de agora tenhamos mais criadores a participar nos mundiais, para que possamos mostrar ao mundo que a ornitologia portuguesa está de boa saúde e recomenda-se.  

22.
Qual o seu principal objectivo na Ornitologia em geral?

R: O meu principal objectivo na ornitologia é continuar a trabalhar para que possa participar nos grandes eventos (Reggio Emília e Mundial) e tentar ganhar uma ou outra medalha.

23.
Qual a sua opinião acerca da selecção natural nos canários?

R: Esta pergunta parece-me um pouco subjectiva, porque uma coisa é a selecção das aves e essa tem que ter a mão do homem para que se possam escolher as aves com as melhores características da raça, afim de formar os melhores casais para a reprodução e consequentemente obter os melhores resultados possíveis. Quanto à selecção natural eu associo-a a questões de robustez, ou seja, não ajudar as aves mais débeis no sentido de só vingar as saudáveis.

24.
Após ter dado este enorme contributo, coloco-lhe uma última questão:
Qual é a regra de ouro para quem se inicia neste hobby?

R: Para se iniciar na criação de aves com um objectivo desportivo, é necessário antes de mais saber quais as aves que pretende criar, procurar o máximo de conhecimentos junto de criadores mais experientes e nunca se precipitar na aquisição do seu plantel. Procurar adquirir as suas aves a criadores com provas dadas no que respeita à qualidade das suas aves. Eu comecei com apenas 4 casais e os meus objectivos eram apenas aprender a criar e a conhecer as diversas raças de canários de cor. É claro que com o tempo o criador vai evoluindo e os seus objectivos também.


Agradeço novamente este enorme contributo e que este Mundial lhe tenha dado mais alento para continuar a superar qualquer patamar imposto por si na sua vida Ornitológica.



Entrevistador: Nuno Carvalho
Entrevistado: Joaquim Cabete

Cumprimentos,
Nuno Carvalho 

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